Brasil. Afinal, quem deu o golpe na Bolívia?

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General Williams Kaliman, Carlos Mesa; ‘comitês cívicos’; milícias criadas em Santa Cruz de la Sierra do Luis Fernando Camacho; EE.UU.de Donald Trump; Luis Almagro, secretário-geral da OEA ? Todos juntos?

 

Eric Nepomuceno

A presidente provisória, que logo deve convocar eleições, se chama Jeanine Árñez.

Como na cerimônia de posse ela teve o senador direitista Álvaro Murillo sussurrando junto ao seu ouvido o que deveria dizer, é fácil entender qual será sua autonomia como presidente interina.

Essa senhora insignificante teria força para chegar onde chegou? Não. Era um zero à esquerda até anteontem, continua sendo hoje e continuará amanhã. Chegou onde chegou graças ao golpe desfechado depois que Evo Morales conquistou mais um mandato ao derrotar no primeiro turno o ex-presidente Carlos Mesa.

Inconformado com o resultado, Mesa fez uma denúncia de fraude. Foi essa denúncia que derrubou Evo Morales?
Não: foi só o primeiro estopim.
Mesa fez um escândalo tremendo, depois calou a boca e sumiu no breu das tocas, à espera do que iria acontecer.
Evo Morales pediu uma auditoria à Organização dos Estados Americanos, cujo secretário-geral é o uruguaio Luis Almagro.
Em pouquíssimo tempo Almagro disse que a tal auditoria constatou irregularidades, e denunciou ao mundo que a eleição tinha sido fraudada.
Evo recusou-se a aceitar a constatação da OEA, e por isso sofreu o golpe de Estado. Certo?

Não, não, nada disso.

Antes mesmo de conhecer em detalhes os métodos que levaram ao resultado da tal auditoria, ele disse que diante daquela conclusão convocaria novas eleições.
Pois bem: nos tais detalhes que ele desconhecia, a OEA disse ter encontrado irregularidades em exatas 78 atas, de um total de 34.555.
Ou seja, em 0,22% delas.
O próprio relatório a OEA, além de registrar esse absurdo, admite que seu trabalho se concentrou só nas regiões onde Evo tinha sido vitorioso.

Seria a OEA cúmplice do golpe?

Com certeza absoluta.
Assim que o relatório foi divulgado, o respeitado Centro de Pesquisa em Economia e Política (CEPR, na sigla em inglês), sediado em Washington e que tem entre seus consultores vários prêmios Nobel, resolveu examinar o documento.
E sua análise é demolidora: diz que a missão da OEA ‘não apresentou evidências’ que sustentassem fraude alguma. Ao contrário, cometeu graves erros de procedimento na tal auditoria.
Bem: e o que o relatório – esse sim, uma fraude – da OEA provocou?
Abriu as portas para a largada que os ‘comitês cívicos’ esperavam para entrar em ação e saíssem às ruas, desatando o golpe.

E o que são esses ‘comitês cívicos’?

São milícias criadas em Santa Cruz de la Sierra, polo de riqueza, racismo desvairado e ultraconservadorismo, no primeiro governo de Evo.
Há outros espalhados pelo país, mas os de Santa Cruz são os mais fortes: ali, jamais foi aceito que um índio tivesse chegado onde chegou.
Seu líder se chama Luis Fernando Camacho, herdeiro de uma família especialmente poderosa.

É um ultracatólico fundamentalista, racista até o mais fundo da alma, e que se aliou a evangélicos de seitas eletrônicas para atacar o presidente sem pausa nem trégua, à espera dos militares.
Ele esteve no Brasil faz alguns meses, e se reuniu, entre outros próceres do bolsonarismo, com Ernesto Araújo no ministério de Aberrações Exteriores.
Consumado o golpe, admitiu candidamente que o governo Bolsonaro estava ‘muito bem informado’ sobre a situação boliviana.
Além de Carlos Mesa, o candidato derrotado, e da escandalosa ação de Luis Almagro, secretário-geral da OEA, houve mais cúmplices no golpe desfechado por Camacho?
Sim, sim, os de sempre nestas nossas comarcas latino-americanas condenadas ao infortúnio: as Forças Armadas, a polícia (que em 2008 já tinha tentado se sublevar contra Evo), os grandes meios de comunicação e, claro, os donos do capital.
Tudo com apoio dos Estados Unidos de Donald Trump, claro, e com a certeza das bênçãos do Brasil de Bolsonaro.
Há dois pontos intrigantes no bloco dos cúmplices. O primeiro se refere às Forças Armadas, que até o último segundo, mesmo quando a polícia já espalhava terror pelas ruas, se mantiveram em silêncio.
Só abriram a boca no instante final, quando a ameaça de uma explosão incontrolável se espalhou pelas ruas, para pedir a renúncia de Evo.
Essa postura indicaria uma divisão interna significativa? O tempo dirá.
O segundo ponto intrigante: durante os anos de Evo na presidência, os ricos de sempre enriqueceram ainda mais.
O modelo econômico aplicado foi extremamente favorável a eles.

Por que então apoiaram o golpe?
Por puro racismo.
Afinal, o tal indígena que os beneficiou cometeu o absurdo inaceitável de também beneficiar a sua própria gente.
Além do mais, por mais presidente que fosse, Evo Morales nunca deixou de ser índio. E, portanto, ser desprezível.
Esse é o lado sórdido, abjeto, das minorias bolivianas que uma vez mais se impuseram à maioria, à ordem constitucional, à decência.
Até quando? Pois vale repetir: o tempo dirá.

Eric Nepomuceno

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https://www.brasil247.com/blog/afinal-quem-deu-e-como-deu-o-golpe-na-bolivia

 

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General Williams Kaliman, que ordenou renúncia de Evo na Bolívia, se aposenta e vai morar nos EUA

 Victor Farinelli

Poucos dias depois daquele domingo (10) em que entrou para a história do seu país como mais um militar golpista, entre tantos outros que a Bolívia já teve, o general Williams Kaliman deixou de ser militar.

A notícia chegou à grande imprensa de outra forma, como se fosse uma demonstração de força da presidenta autoproclamada (sem quórum mínimo da Assembleia Nacional) Jeanine Áñez, que substituiu na quarta-feira (13) todo o alto mando das Forças Armadas. A verdade, no entanto, é que naquele momento Kaliman já havia formalizado seu pedido de aposentadoria e preparava sua saída do país.

Sim, o agora ex-militar está em processo de mudança para os Estados Unidos, onde passará a viver, em cidade ainda desconhecida, segundo o site Resumen Latinoamericano.

A passagem de Kaliman pelo comando das Forças Armadas bolivianas não foi muito longa: ele assumiu o cargo em dezembro de 2018, chamando o presidente Evo Morales de “irmão”, e agradecendo porque “o maior privilégio que já recebi na vida é o que você está me concedendo hoje”.

Na mesma cerimônia, ele se definiu como “um soldado do processo de mudança”, supostamente em referência às transformações realizadas pela gestão de Evo – hoje, talvez podemos supor que falava em outro tipo de mudança.

Em agosto, durante a celebração do Dia das Forças Armadas, evento no qual estava novamente acompanhado do presidente Evo Morales, Kaliman declarou que: “nós (os militares como ele) nascemos durante a luta contra a colônia e morreremos anticolonialistas, porque é a nossa missão, nosso orgulho e nossa razão de viver”.

Também afirmou que “as Forças Armadas são do povo e trabalham para o povo e por isso apoiamos a nacionalização do petróleo e do gás e as políticas de Estado que favorecem os mais necessitados”.

No verão passado

As palavras recentes de Kaliman podem tornar sua traição surpreendente, mas uma análise em seu currículo revela que havia indícios para desconfiança.

O agora ex-general realizou diversos cursos no exterior, sobretudo relacionados à inteligência militar. E ao menos um desses estudos se destaca sobre os demais: sim ele foi aluno da famosa escola de Fort Benning, mais conhecida como Escola das Américas, durante o ano de 2004, segundo confirma um relatório da ONG Observatório da Escola das Americas (School of Americas Watch).

Outro dado curiosidade desse informe é que Kaliman passou por esse treinamento nos Estados Unidos no ano de 2004. Por que é curioso? Adivinhem quem era o presidente da Bolívia naquele então? A resposta é: Carlos Mesa.

Sim, o mesmo candidato que perdeu as eleições de 20 de outubro contra Evo Morales, desconheceu o resultado e iniciou, a partir desse gesto, a campanha golpista, que culminou com Kaliman exigindo a renúncia do presidente.

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General Williams Kaliman, que ordenou renúncia de Evo na Bolívia, se aposenta e vai morar nos EUA

 

 

Fotoarte: “Williams Kaliman e Jeanine Áñez”

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