As causas da fome

A fazer fé na opinião dominante, veicu­lada pela grande imprensa, a crise ali­mentar que ocupou os espaços nobres dos noticiários do Outono passado, foi provocada pela especulação fi­nanceira, os desastres naturais do ano de 2007 e 2008 e a melhoria das condições de vida na China e na Índia. Explicar as coisas desta ma­neira, reduzindo o alastramento da fome às causas conjunturais, é ocultar tanto as reais, estruturais, como a profundidade e a dimensão da crise e, acima de tudo, recusar estabelecer qualquer relação entre a subida vertiginosa dos bens alimentares e a crise do sistema capitalista iniciada com a ban­carrota no imobiliário que, como um domi­nó, se estendeu ao agro-alimentar e, por en­quanto em menor escala, às matérias-pri­mas, como o petróleo e os minerais. Ou seja, a fome global, numa escala sem prece­dentes que traduz o empobrecimento gene­ralizado de largos sectores da população mun­dial é, em primeiro lugar, o resultado da reestruturação neoliberal iniciada nos anos 80.

Ao contrário do que nos vêm prome­tendo os seus propagandistas, a liberdade dos mercados deu-nos, em vez do enrique­cimento e do bem-estar global, o enriqueci­mento sem limites de uns poucos, cada vez mais poucos, à custa da globalização da mi­séria absoluta. Foram as políticas impostas pelo FMI e o Banco Mundial aos países do Terceiro Mundo que mergulharam a hu­manidade naquela que ameaça vir a ser a sua maior crise de sempre. O resultado de mais de duas décadas de programas de ajus­tamento estrutural e “incentivos à agricul­tura”, segundo os modelos impostos àque­les países na negociação das suas dívidas externas, foi a destruição das suas agricultu­ras, a dependência alimentar, a depreciação das matérias-primas e, como corolário, o em­pobrecimento de centenas de milhões de pessoas. O que pode ser atestado por um conjunto de factos, que são do domínio público:

Primeiro facto – Desde os anos 80 que o problema da fome deixou de ser agrí­cola e passou a ser político. Ao ponto de nos anos 90 a produção agrícola mundial dar para alimentar duas vezes e meia a po­pulação mundial. Todos se recordarão dos milhões da ovelhas todos os anos abatidos e enterrados em valas na Austrália, dos mi­lhares de toneladas de frutas e legumes lan­çados para as lixeiras comunitárias, da pesca intensiva com vista à produção de rações, dos milhões gastos pela EU para conservar os excedentes lácteos que não encontravam mercado, etc.

Segundo facto – Apesar da sobrepro­dução alimentar, a fome tornou-se en­démica na África, Ásia e América Lati­na. Mais, começou a invadir o Norte rico – EUA, UE e Canadá. Ao inundar os mer­cados africanos, asiáticos e da América do Sul com alimentos baratos (não porque a produção agrícola europeia ou norte-ame­ricana seja mais barata, mas porque é subsi­diada, nalguns casos a mais de 50%), os paí­ses ricos arruinaram a agricultura desses paí­ses, cujos agricultores e pastores deixa­ram de encontrar compradores para o que produziam nas suas lavras. Os campos foram abandonados, nas cidades começaram a concentrar-se milhões de párias, outros milhares imigraram. As terras abandonadas passaram a ser objecto de especulação imo­biliária e, na maioria dos casos, tomadas pe­las grandes multinacionais agro-alimen­tares. Países que ainda há dez anos eram auto­suficentes do ponto de vista alimentar estão agora totalmente dependentes dos mer­cados externos. Por exemplo, o Méxi­co, que de maior produtor de milho passou a importador da quase totalidade deste cereal, ou a Indonésia, Nigéria, Guiné-Bissau, Índia, Vietname, China, etc. relativamente ao arroz. “Na Índia os pobres morrem de fo­me enquanto os excedentes de trigo apo­drecem”, constatava o New York Times de 2 de Dezembro de 2002.

Terceiro facto – O esgotamento a mé­dio prazo dos recursos petrolíferos fez com que se procurassem alternativas energéticas mais baratas e duráveis, desviando a pro­dução cerealífera e de óleos da alimen­tação humana para a produção dos bio­combustíveis. Estes, ao permitirem que as máquinas que conhecemos, feitas para tr­abalhar com combustíveis fósseis, pos­sam continuar a funcionar com combustí­vel obtido a partir de milho, beterraba, etc., são para já a solução de transição, até se en­contrarem novas formas de energia bara­ta e em quantidade, e as correspondentes má­quinas. Por exemplo, em 2007, 20% da produção de milho dos EUA foi utilizada no fabrico de etanol, tendo-se gasto 6 mi­lhões a subsidiar a produção de cereais e drenado 138 milhões de toneladas de milho da alimentação humana para a produção de biocombústivel. Este facto levou Jean Ziegler, em entrevista ao Libération, a dizer que “estão lançadas as bases de um crime contra a humanidade”.

Quarto facto – A alteração dos hábitos alimentares induzida pelas grandes cadeias de fast food, assente numa dieta à base de car­­ne, fez com que outra parte significa­tiva de cereais (principalmente milho e soja) esteja a ser cada vez mais retira­da da alimentação humana para ali­mentar gado e aves, situação agravada nos último anos com a crescente procura des­tes alimentos pela classe média da Amé­rica Latina e da Ásia, da China em particular, seduzidas pelas Mac Donald e afins.

NOTICIAS ANTICAPITALISTAS