Publicado en: 27 octubre, 2015

Argentina: Scioli venceu o primeiro turno e enfrentará Macri

Por Fernando Cibeira / Pagina12

Daniel Scioli se impôs por menos de dois pontos percentuais sobre o neoliberal Mauricio Macri, com quem definirá a disputa em segundo turno.

Uma contagem lenta e um resultado bastante apertado. O candidato da Frente para a Vitória (FpV), Daniel Scioli, terminou se impondo no meio da madrugada, com uma diferença de quase dois pontos percentuais a mais que o concorrente da coligação Cambiemos (“Mudemos”), o neoliberal Mauricio Macri. Com isso, pela primeira vez na história, a presidência da Argentina se definirá num segundo turno, que acontecerá no dia 22 de novembro.

Às 3h, Scioli ostentava 36,4%, contra 34,7% de Macri, uma diferença muito menor que a observada nas primárias e do que as pesquisas apontavam.

A Província de Buenos Aires terminou sendo decisiva para este resultado a nível nacional, mas, inesperadamente, foi decisiva a favor do macrismo. A coligação Cambiemos fez uma grande eleição, e María Eugenia Vidal derrubou todos os prognósticos, ao derrotar aquele que foi um dos principais ministros de Cristina Kirchner, o chefe de gabinete Aníbal Fernández, por mais de quatro pontos: 39,5% contra 35,2%.

É de se imaginar que, a partir de hoje, a FpV começará uma profunda análise da eleição, incluindo dados duros. Por exemplo, o fato de que Scioli não superou a votação que ele mesmo conseguiu nas primárias de agosto, o que dificultou em muito uma tentativa de ganhar no primeiro turno, como se apontou inicialmente – pior ainda, sua votação neste domingo registrou 2% a menos do que ele obteve nas primárias. Nos dois distritos onde ele trabalhou para melhorar sua votação (Córdoba e Cidade de Buenos Aires), seu aumento foi quase imperceptível. Já na Província de Buenos Aires, ele obteve três pontos a menos.

Com Mauricio Macri aconteceu totalmente o contrário. Em algum momento, houve dúvidas de que pudesse manter a votação conseguida por Cambiemos nas primárias de agosto. Na Província de Buenos Aires, ele aumentou sua votação em 4%, enquanto em Córdoba, conseguiu uma vitória por 53%, ficando com boa parte dos votos de José Manuel de la Sota – pré-candidato cordobês, pertencente à Frente Renovadora, derrotado nas primárias por Sergio Massa.

Em suma, fazendo a comparação dos votos, Scioli conseguiu uma votação muito parecida à das primárias, ao redor de 8,5 milhões de eleitores. Com isso, podemos deduzir que a grande maioria daqueles que não foram votar nas primárias o fizeram ontem – votaram mais de 80% dos inscritos –, e votaram por Macri.

Na Luna

Muito antes de que a Direção Eleitoral desse o primeiro resultado oficial, a certeza do segundo turno ficou clara no discurso de Scioli no ginásio Luna Park, agradecendo “uma nova mostra de confiança” e convocando “os indecisos e os independentes”, ao lado do seu candidato a vice, Carlos Zannini, pouco antes das 22h. À sua direita, seus colaboradores mais próximos, e à esquerda, sua família e funcionários. Foi o virtual início de sua campanha para o segundo turno.

“Existem duas visões diferentes na Argentina”, disse ele, afirmando que “a nossa prioridade são os humildes, os trabalhadores e a classe média”. Reivindicou o governo de Cristina Kirchner, a defesa dos direitos humanos e a defesa de “nossa independência econômica”. Também fez algo não muito comum em sua postura, ao fazer uma alusão direta ao seu rival. “Se fosse por Macri, não teríamos Contribuição Universal por Filho (programa social, espécie de Bolsa Família da Argentina), e também não teríamos (nacionalização das) Aerolíneas Argentinas, e teríamos ido pagar os fundo abutre sem nem mesmo brigar pelos interesses da Argentina, acataríamos a decisão do juiz Griesa (o magistrado estadunidense que condenou o Estado argentino)”, afirmou enfaticamente Scioli, que se apresentou como o mais experiente para administrar o país. Ao terminar, junto com sua mulher, Karina Rabolini, agradeceu o apoio e assegurou que voltaria a falar depois da divulgação dos primeiros resultados, mas não voltou.

Na Costa

Desde que a votação se encerrou, o bunker eleitoral de Cambiemos, na Costa Salguero, foi uma festa, com um grande telão anunciando aos presentes que haveria segundo turno. A candidata a vice-presidência, Gabriela Michetti, e principalmente María Eugenia Vidal, foram as animadoras do palco, não poupando frases e slogans de campanha: “estamos perto”, “vamos estar com vocês”, “vocês nos ajudaram”. Às 23h, apareceu Mauricio Macri.

“Hoje, a política deste país começou a mudar”, afirmou o candidato presidencial. Macri se esforçou em enviar boas ondas àqueles não votaram por ele ontem, agradecendo mais a esses do que aos que votaram realmente por ele. “Vou trabalhar de manhã, de tarde e de noite para ganhar a sua confiança”, assegurou. Todos os dirigentes da aliança macrista se encontravam sobre o cenário. “Se cada um dos argentinos nos ajudar a chegar à vitória definitiva, poderemos construir a Argentina que sonhamos”, concluiu Macri, antes de sair do palco dançando, com sua filha Antonia sobre os ombros. Os balões amarelos típicos do partido PRO (o partido direitista de Macri) foram substituídos por outros celestes e brancos. Os festejos se prolongaram durante toda a madrugada.

As denúncias de fraude, que foram ventiladas no começo da votação – a ex-candidata do Partido Radical, Elisa Carrió, derrotada por Cristina Kirchner em 2007 e hoje aliada de Macri, foi a principal porta-voz dessa denúncia permanente, também durante a jornada de ontem – logo foram esquecidas, devido às boas notícias que eram divulgadas.

Dados lentos

A jornada eleitoral se apresentou mansa e tranquila, inclusive mais do que foram nas primárias de agosto. O ministro da Justiça, Julio Alak, avaliou como “as eleições mais controladas e fiscalizadas da história”. Em seu balanço, no momento do fechamento das urnas, 79% dos eleitores haviam votado – depois se comprovaria que foram mais de 80% –, o que representava “uns 5% a mais que os participantes das primárias abertas”.

O diretor eleitoral, Alejandro Tullio, havia prometido que os primeiros resultados seriam divulgados às 23h, com a ideia de que essa divulgação já trouxesse uma “quantidade homogênea de todas as províncias”. Mas não foi assim. Insolitamente, até a meia-noite, não havia sido publicada nenhuma informação. Alak e Tullio fizeram, nessa mesma hora, uma nova aparição, justificando a demora por causa da falta de números da maior parte da Província de Buenos Aires. Nesse então, todos os candidatos já haviam falado. Na primeira entrega de resultados, Macri aparecia em vantagem sobre Scioli, e Vidal sobre Fernández, com o que se entendeu pela excessiva prudência para revelar os números.

Buenos Aires e o resto

O impactante triunfo de María Eugenia Vidal na Província de Buenos Aires marca o fim da hegemonia do peronismo no distrito mais importante do país há 28 anos. O macrismo arrasou no interior da província e também ganhou em vários distritos da região metropolitana. Um dado ilustrativo foi que Aníbal Fernández (candidato kirchnerista ao governo e atual chefe de gabinete de Cristina) perdeu em seu distrito natal, Quilmes, e em Morón, o distrito do seu vice, Martín Sabbatella. A diferença entre eles e o candidato presidencial também foi significativa: Scioli conseguiu na província 300 mil votos a mais que a candidatura a governador.

Também foram eleitos governadores em outras dez províncias. A oposição unida celebrou o amplo triunfo do radical Gerardo Morales em Jujuy, contra o justicialista Eduardo Fellner. Em Santa Cruz, em uma recontagem lenta, Alicia Kirchner se impõem na briga e vai sendo eleita governadora, enquanto Máximo Kirchner ratifica o cargo de deputado. Em Chubut, o peronista opositor Mario das Neves se impôs por muito pouco ao governador Martín Buzzi. O justicialismo e os aliados ratificaram sua condição de favorito em Formosa, Misiones, Catamarca, La Pampa e San Juan, o mesmo acontece com Alberto Rodríguez Sá em San Luis. Em Entre Ríos, o kirchnerista Gustavo Bordet também se impôs por pouco contra o ruralista Alfredo De Angeli.

Com relação à eleição para o Congresso, a Frente para a Vitória conservou a maioria própria no Senado e a primeira minoria na Câmara de Deputados. O macrismo também mostra um crescimento neste aspecto.

Tradução: Victor Farinelli

 

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