Ajudar ou não ajudar a Europa, eis a questão (chinesa)

A União Europeia (UE) é o principal sócio comercial chinês, destino de 23% de suas exportações e fonte de um crescente superávit comercial que passou de 55 bilhões de euros em 2001 para 180 bilhões este ano. Mas, mais do que se aventurar nas areias movediças do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira no qual a UE tenta ancorar o euro, a China está utilizando diversos canais para promover uma estratégia alternativa que consolide seus próprios interesses econômicos e diplomáticos.

Com os países da Eurozona contra as cordas, a China trata de desfolhar a margarida. A União Europeia (UE) é seu principal sócio comercial, destino de 23% de suas exportações e fonte de um crescente superávit comercial que passou de 55 bilhões de euros em 2001 para 180 bilhões este ano. Mas, mais do que se aventurar nas areias movediças do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira no qual a UE tenta ancorar o euro, a China está utilizando diversos canais para promover uma estratégia alternativa que consolide seus próprios interesses econômicos e diplomáticos.

“A China prefere ajudar a Europa com o investimento de suas empresas”, assinalou o vice-diretor da Academia de Investigação Macroeconômica chinesa, Wang Yiming, que utilizou uma metáfora chamativa para resumir a natureza da intervenção. “Mais que uma transfusão, a Europa precisa melhorar sua capacidade de produzir glóbulos vermelhos”.

A China tem mais de 400 bilhões de dólares em seu fundo soberano, a China Investment Corporation, órgão estatal encarregado de canalizar os investimentos de suas reservas de mais de 3 trilhões de dólares, mas seu diretor Lou Jiwei disse em um recente artigo no Financial Times que a UE precisa de muito mais investimentos em infraestrutura do que ajuda financeira na forma de bônus.

“A UE precisa renovar seu investimento em infraestrutura com urgência. Os fundos soberanos tentam investir uma boa parte de seus recursos em destinos com um bom rendimento financeiro no longo prazo. A China hoje quer não só atuar como contratista, mas sim ser a gestora desses investimentos”, indicou Jiwei que solicitou transparência e facilidades europeias para o investimento.

Na mesma direção, o vice-chanceler chinês Fu Ying disse na semana passada que uma intervenção chinesa na crise da eurozona tem algumas condições: a UE tem que abrir suas portas ao investimento. “A Europa necessita da cooperação chinesa para superar suas dificuldades. Não se entende então que haja tanta negatividade política para uma relação que deveria ser saudável e positiva para ambas as partes”, disse Fu Ying.

O Reino Unido, à beira da recessão e buscando uma alternativa ao draconianao plano de ajuste da coalizão conservadora-liberal democrata, é um posto avançado desta estratégia chinesa. O Reino Unido planeja investir mais de 310 bilhões de dólares em infraestrutura nos próximos cinco anos. Em declarações ao jornal “China Daily”, a vice-diretora da UK Trade and Investment, entidade estatal de promoção de investimentos, Susan Haird, se comprometeu a garantir a transparência que a a China vive reclamando.

“Creio que as empresas chinesas podem realizar um aporte muito importante neste investimento em infraestrurura que o Reino Unido necessita”, disse Haird. O governo chinês pôs em marcha uma de suas armas favoritas em sua política de sedução: os ursos panda. Em um novo capítulo da “diplomacia panda”, dois ursos – Yang Gang (brilho solar) e Tian Tian (doce) – chegaram ao zoológico de Edimburgo na semana passada em um empréstimo de dez anos que busca preparar o terreno para outros desembarques de fundos “tian tian”.

Isso significa que está descartada a participação chinesa no Fundo de Estabilidade europeu? O Conselho Europeu de Relações Exteriores, um “think thank” pan-europeu, não descarta essa participação, mas a condiciona ao tipo de cenário oferecido pela Europa a uma direção comunista “muito cautelosa na hora de tomar decisões”.

Em um estudo publicado no final de novembro, o conselho considerou que se a UE mostrar uma frente coerente e um plano convincente euro-federalista, a China “buscará por todos os meios emprestar dinheiro”. Se, em troca, o cenário for de debilidade e divisão interna, a China evitará por em risco suas reservas, não só pelo risco financeiro, mas pelo custo político interno.

Um artigo publicado esta semana no jornal chinês Global Times revelou uma crescente aversão da população à ajuda a países regionais como Camboja ou europeus pobres como a Macedônia. “Enquanto muitos jovens e Xinjiang sofrem o inverno sem roupa suficiente, o governo se dedica a fazer essas doações. Não posso acreditar nisso”, indicava em um post de um microblog um usuário que se identificava como Mingmingyue. Com este panorama interno, ficará muito difícil para o governo justificar uma ajuda financeira multimilionária para a rica Europa.

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