A invenção do Brasil e o Brasil de invenção

 

“Em momento algum foi destacada a façanha de países historicamente subordinados ao poderio do império americano terem tido a iniciativa corajosa de se juntarem para criar uma instituição e um fundo à revelia do FMI e Banco Mundial.”

“Mais importante para a velha mídia foram, por exemplo, a escolha do novo técnico da seleção brasileira, a remoção do navio Costa Concordia na Itália, o final da novela Em Família da Globo e as chamadas diretas e indiretas de sinais de recessão.”

 

Samba de uma nota só. Dia após dia a mesma ladainha. Se não influi, tampouco contribui. Conseguem, no entanto, lançar um certo ar de mal estar indefinido sobre a situação do País. A imprensa tupiniquim escolhe a dedo as manchetes e dedilha a mesma nota modorrenta sem dó. Os informantes costumam ser os mesmos, sempre insatisfeitos com o que veem e irritados se suas opiniões não são seguidas.

 Esta semana de 14 a 20 de julho pelo menos uma manchete objetiva quase não saiu e a outra subjetiva retumbou em alguns mais que noutros veículos de comunicação. A primeira, represada nos arquivos dos computadores e tablets, foi a reunião dos BRICS em Fortaleza e a segunda, retirada por encomenda das cabeças de meia dúzia de entendidos, foi a previsão de recessão nas atividades econômicas.

A criação do Brasil é feita todo dia. Resulta de cada tarefa, cada ocupação, cada rotina, cada horário, cada construção. Por aqueles que acordam de madrugada para enfrentarem filas de ônibus rumo ao trabalho. Pelos que dão plantões em hospitais, polícias, telefônicas, vigilância e terceiros turnos de fábricas. Trabalhadores que foram eternizados por Vinícius de Moraes no poema “Operário em construção”.

Igualmente se cria e recria o País nas escolas desde os jardins às pesquisas de pós-doutorado, nos concertos sinfônicos, nos malabaristas de circo e de rua, nos contos de fadas e romances, nos volantes dos caminhões e táxis, nas plataformas de petróleo, nas rotas dos aviões, nos lixões. Somam-se aí milhões de anônimos, desconhecidos, que dormem e acordam na esperança de um dia com horas melhores.

Todos esses conhecem o País a cada passo, a cada gota de suor, a cada tristeza, a cada alegria. Claro que sonham e inventam estórias e piadas que servem apenas para suavizar o peso do cansaço do dia a dia. O Brasil a eles rende homenagem e não se faz de rogado, vai em frente abrindo espaços novos, refazendo os antigos.

Mas há os que montam o Brasil somente de invenção. O país imaginário, sem território, sem fronteiras, sem nada, somente ideias, opiniões, comparações e até mesmo preconceitos, às vezes tão absurdos que de tanto serem repetidos podem até virar verdades. O país da fantasia, das previsões, das suposições, das pitonisas na arquibancada.

 A maioria daqueles que criam o País no trabalho, escola e demais recantos conhecem de perto sua realidade e aprendem com os demais outras realidades. Daí elaboram suas ideias próprias, particulares, acerca da realidade. E vai com ela semanas a fora viver sua vida em casa e no trabalho. Sabem eles quanto valem as tarifas de ônibus ou metrô, os preços dos produtos nos mercados e nas feiras, os valores de ter em casa TV, geladeira, fogão, as dificuldades para pagar as contas no fim do mês e o receio de cair nas malhas dos serviços de crédito.

Já aqueles que fazem o país só de invenção tratam de uma realidade fora dos mapas, das ruas, dos endereços e do quotidiano. São hábeis manipuladores de números, relações, tabelas, comentários e opiniões. Não que desconheçam a saga dos criadores do país, mas fazem dela abstenção. Buscam apostar em montagens de dilemas, dificuldades, contradições, impedimentos, de sorte a inviabilizarem as chances do país em que vivem. Querem outra coisa mesmo que não saibam bem o que possa ser.

Vamos aos fatos. A criação do banco dos BRICS e do fundo de segurança deve ter sido provavelmente a mais significativa novidade construída por um grupo de países emergentes em todos os tempos conhecidos. Pois o lançamento de Fortaleza, reunindo chefes de Estado e representantes desses países, ou foi relegado a segundo plano ou simplesmente ignorado pela mídia nacional.

A repercussão do impacto econômico, social e político do evento simplesmente não existiu. As redes sociais foram as que deram o devido destaque. Mais importante para a velha mídia foram, por exemplo, a escolha do novo técnico da seleção brasileira, a remoção do navio Costa Concordia na Itália, o final da novela Em Família da Globo e as chamadas diretas e indiretas de sinais de recessão.

Em momento algum foi destacada a façanha de países historicamente subordinados ao poderio do império americano terem tido a iniciativa corajosa de se juntarem para criar uma instituição e um fundo à revelia do FMI e Banco Mundial. Mas não, sinais débeis de recessão, por exemplo, chamaram mais a atenção dos editores. Ou por desconhecimento do assunto ou por completo conhecimento da repercussão do assunto: melhor não destacar o encontro de Fortaleza para não levantar a bola do governo e de sua candidata.

A recessão foi apontada por indicadores parciais que ainda tampouco resvalam nela. Economistas de bancos em sua maioria sim carregaram tinta em suas previsões de próximas caídas iminentes do PIB. Vejam só, exatamente os bancos que facilitam a retirada de recursos da produção para aplicações mais fáceis e imediatas em papeis especulativos.

Pior, em momento algum disseram que as dificuldades sim que enfrenta a economia brasileira são decorrentes de endereço certo: a crise na Zona do Euro, a retomada lenta da economia americana e a redução do crescimento chinês. Para as pitonisas, o Brasil é resultado apenas de sua política econômica que não consegue estimular o crescimento industrial.

Maria da Conceição Tavares deve estar nervosa com essas previsões. Em números atrás na Carta Maior ela aponta exatamente as pressões sobre a economia brasileira dos efeitos da crise mundial desde o estouro em 2008 que pegaram a Zona do Euro, os EUA e a China além de outros países. O Brasil foi um dos poucos que conseguiu navegar sem deixar entrar água no barco.

Acresça no rol de fatores as eleições presidenciais deste ano que provocam incertezas normais de avaliações de política econômica. Na dúvida preferem os empresários se aquietarem, guardarem novos projetos e administrarem os existentes até que as coisas fiquem mais claras. O final do ano deverá mostrar o cenário futuro possível e provável, devendo, aí sim, facilitar que se leve a cabo previsões mais realistas, menos influenciadas por golpes baixos.

Enquanto isso, para os que não querem continuar irritados, melhor seguirem as mídias sociais onde proliferam ideias mais ousadas, opiniões mais realistas, pois abertas ao acesso e intervenção do público em geral sem os bordões repetitivos dos grupos há décadas estabelecidos.

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