A farsa da “sustentabilidade” – Um debate sobre as questões do modo de vida

Origens
 
O termo “desenvolvimento sustentável” foi utilizado inicialmente em 1983, pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, presidida pela então primeira Ministra da Noruega, a Médica e diplomata Gro Harlem Brundtland.
 
No ano de 1987, a partir daquela comissão que já contava com a participação de diversos países, foi gerado um relatório – Nosso Futuro Comum – objetivando consolidar uma nova “declaração universal” sobre a proteção ambiental em todo mundo.
 
Mas antes que nos encantemos com estas intenções de preservação do meio ambiente, analisemos alguns fatos da conjuntura daquele momento:
 
 
Por que houve a realização deste evento?
 
Quais os reais interesses dos países envolvidos?
 
Quais as consequências dos novos rumos a partir deste evento?
 
 
A proposta central do documento “Nosso Futuro Comum” era de integrar a questão ambiental ao desenvolvimento econômico dos países, sugerindo em seus diversos capítulos formas dos governos progredirem sem que isso comprometesse as futuras gerações. Desta idéia surgiu o conceito oficial de “desenvolvimento sustentável”, que é definido no citado relatório como:
 
 
“Atender às necessidades da atual geração, sem comprometer a capacidade das futuras gerações em prover suas próprias demandas.”
 
 
Naquele ano, 1987, o planeta presenciava o avanço do poderoso bloco econômico liderado pelos Estados Unidos. A guerra fria estava chegando ao seu fim, o comunismo stalinista estava sendo derrotado por si mesmo e pelo esforço do capital. A nova ordem era investir no desenvolvimento imediato das nações e substituir as tecnologias “ultrapassadas” associadas às idéias supostamente socialistas.
 
 
Tudo que representasse o “durável” e “estabelecido” era associado à ausência de evolução e desenvolvimento, assim, a palavra de ordem era investir em renovação de tecnologias, globalizar os mercados consumidores e em última análise consumir, consumir e claro, consumir.
 
A vitória do bloco capitalista promoveu amplamente a idéia que o investimento na industrialização dos países de “terceiro mundo” seria um ótimo negócio para todos, já que seriam criados novos e inúmeros mercados consumidores, exportadores e assim as nações com “poucos recursos” veriam uma luz no fim do túnel, seriam libertadas pelo seu novo “poder de produção”. Mas à custa de quê?
 
 
Todo este processo envolveria necessariamente o uso cada vez mais desenfreado de recursos naturais. Se o objetivo maior era “desenvolver”, por outro lado, a manutenção desses recursos acabava por ficar em segundo plano. Neste contexto, eventos que já vinham ocorrendo desde a década de 60 de forma tímida, como o Clube de Roma e a Conferência de Estocolmo, por exemplo, começaram a se sobressair mais e a envolver diversas nações com o intuito de observar a preservação dos recursos como água, florestas e afins.
 
 
A comissão da Noruega iniciada em 1983 teve basicamente o intuito de apoiar o desenvolvimento desde que este preservasse as fontes de matérias primas utilizada bem como viabilizasse uma vida adequada aos seres humanos envolvidos no processo. Seria uma cartilha de como avançarmos no capitalismo mantendo as condições da natureza repor seus recursos a contento. Daí começa toda a manipulação e mentira…
 
 
O capitalismo como sistema econômico só é possível com a exploração do homem sobre o homem e do homem sobre a natureza sem quaisquer limites . Desta forma, NÃO É POSSÍVEL manter o planeta em suas condições mínimas de sobrevivência digna para todos. Não há o que se chama de SUSTENTABILIDADE em um sistema capitalista, pois isso é contraditório e impossível como mostraremos a seguir.
 
A obsolescência programada

 
Obsolescência programada é o nome dado à vida curta de um bem ou produto projetado de forma que sua durabilidade ou funcionamento se dê apenas por um período reduzido. È um mecanismo capitalista que surgiu nas décadas de 1930 e 1940 e faz parte de uma estratégia de mercado que visa garantir um consumo constante através da insatisfação, de forma que os produtos que satisfazem as necessidades daqueles que os compram parem de funcionar ou tornem-se obsoletos em um curto espaço de tempo, tendo que ser obrigatoriamente substituídos de tempos em tempos por mais modernos.
 
 
Sim! Aquela máquina de lavar que quando éramos crianças durava 30 anos, hoje é feita para durar apenas 2 anos. Isso é programado, sabe por quê? Para que após estes dois anos outra seja comprada. O que significa que mais matéria prima será utilizada na confecção de uma nova máquina e claro, a antiga vai virar mais um resíduo em nosso planeta aumentando a quantidade de lixo de forma estúpida.
 
 
Nos anos de 1980/90 a obsolescência programada já era utilizada há décadas. Mas com o crescimento de alguns grupos sociais que começavam a pressionar mais fortemente as questões ambientais, foi necessário o surgimento de comissões, cartilhas e falsos conceitos de que o capitalismo, embora crescente, estaria então passando a se “preocupar’ com esta questão.
 
 
É claro que algumas inovações tecnológicas favorecem a manutenção do ambiente e a permanência de sua saúde, controlando melhor determinadas emissões de poluentes ou minimizando o uso de alguns recursos naturais. Mas o que importa deixar bem claro é que essas funções não são o foco dos que comercializam essas tecnologias. Foram frutos de pressões sociais ou apenas alternativas para maiores lucros. 
 
 
Não adianta querer investir em um carro que utiliza dois tipos de combustível achando que (só) isso é preservar o ambiente. Cada carro “flex” fabricado vem com novos 4 pneus, pneus estes que são fabricados a partir de 2 barris de petróleo. As tintas utilizadas na lataria também são oriundas de fontes fósseis, de novo o petróleo. Se fizer a continha matemática mais básica vai descobrir que seu carro gastou muito mais petróleo em sua fabricação do que queimará efetivamente em sua vida útil!
 
 
A lataria também é fabricada com diversos recursos minerais, muitos deles quase sem reservas mundiais atualmente devido ao uso desenfreado. Sem esquecer obviamente que as linhas de produção desses automóveis geram postos de trabalho cada vez mais precarizados, onde os trabalhadores são submetidos à jornadas de 12 e até 14 horas diárias, com remunerações vergonhosas para o aumento absurdo da produção com a finalidade de poder suprir o mercado. Mercado este que vive dos incentivos para que troquemos de automóvel todo ano! Um ciclo que se renova a toda instante… Será que realmente fez diferença benéfica para o planeta você investir no seu novo carro flex??
 
 
Ou o caro leitor acha que impostos reduzidos para carros novos são criados apenas por que o querem ver de carro novo, saudável, seguro e feliz? Quando você começa a desconfiar que há algo de errado vem a mídia com o “marketing verde” e diz que você “precisa” de um carro novo para poluir menos e “ajudar o planeta”…mas nunca nas propagandas vêm falando da extinção e uso abusivo dos recursos para a fabricação desses mesmos carros. A poluição e exploração imorais que estão por trás do seu “eco carro”e a crescente taxa de lucros das montadoras. 
 
 
Ok. Se o exemplo do carro está distante de sua realidade, pois você não o troca todo ano ou simplesmente nem tem um (como os redatores deste blog!) , passemos então para algo ainda mais mentiroso e cotidiano. Vamos ao exemplo das …
 
 
“Ecobags”

 
Você sabia que as sacolas de plástico do supermercado ( fabricadas em PEAD- Polietileno de alta densidade) causam menos danos ao ambiente do que os sacos de papel ou as chamadas ECOBAGS? Sim é isto mesmo, os sacos plásticos de mercado são menos danosos ao ambiente…
 
 
Um estudo do governo britânico publicado em fevereiro de 2011 comprovou que as sacolas retornáveis só podem ser consideradas menos poluentes que as sacolas plásticas se forem utilizadas por anos. Uma vez descartadas, sua degradação no ambiente natural é bem mais prejudicial que uma sacola plástica.
 
 
Obviamente não são refutados os danos que as sacolas plásticas causam aos corpos hídricos bem como o longo tempo de sua degradação. Entretanto, o estudo observou que as sacolas retornáveis só seriam realmente eficientes se seu uso fosse feito todos os dias do ano, por vários anos, a mesma sacola, o que na prática não costuma acontecer. As sacolas retornáveis são utilizadas em média 50 vezes antes de serem descartadas. Isso porque cada supermercado cada vez mais se esforça em nos convencer que temos que ter mais e mais sacolas “ecológicas” e assim acabamos por comprar um monte delas.
 
A questão da poluição do planeta deve levar em conta não só o uso final de um produto, mas as contribuições de poluentes ao longo de toda sua cadeia de produção, desde à matéria prima, produção, transporte até sua efetiva utilização. No balanço final, muitos produtos que (quase a maioria!) têm fama de “verdes”, na verdade, para serem produzidos poluem tudo por onde passam. Enquanto isso os meios de comunicação nos convencem que se não os comprarmos não estaremos ajudando o planeta!
 
Não importa ter em casa matériais de “fibra ecológica” se consumimos centenas deles por ano. Quando virarem lixo serão descartados em lixões sem controle promovendo impactos visuais, sanitários e condições insustentáveis de sobrevivência a quem estiver no seu entorno.
 
Redução do Consumo

 
A chave para a real sustentabilidade é a Redução do Consumo. A cada ano milhões de celulares são lançados com supostas novas tecnologias (são quase sempre as mesmas!) e claro, com um carregador e uma bateria diferentes a cada modelo ( para que você não reutilize os antigos). Sabe por quê? Porque para a sobrevivência do capitalismo você precisa consumir, consumir e, claro, consumir. É este comportamento que nos é ensinado desde criança e é deste consumo absurdo que os donos dos meios de produção (os empresários) retiram seus lucros. Só há sustentabilidade com a reeducação dos nossos costumes, com a REDUÇÃO de nosso consumo desenfreado. 
 
 
Como então acreditar em um CAPITALISMO SUSTENTÁVEL?
 
 
Simples, não acredite, isso não é possível.
 
Assim, avaliemos todas estas informações. A real mudança de modo de vida que é preciso ser feita é PARAR DE CONSUMIR sem necessidade e NÂO CONSUMIR MAIS coisas “ecológicas” pois isso não faz o menor sentido se o objetivo é proteger a natureza e seus recursos.
 
Claro que vivemos em um mundo material, precisamos de equipamentos, roupas e acessórios dos mais diversos, mas olhe agora a sua volta e avalie o que realmente é necessário…
 
As “bandeiras verdes” são equivocadas quando reforçam a idéia de consumir cada vez mais coisas, por mais “ecológicas” que essas coisas possam parecer. Devemos mudar nossos hábitos REDUZINDO o consumo ao necessário e NÃO CONSUMINDO o desnecessário e, posso garantir, o desnecessário é algo em torno de 90% que acabamos comprando induzidos pelas idéias da classe dominante, dona dos meios de produção, do capital e dos lucros sobre todo este consumo. São eles que ditam que se você não tiver algo não será feliz.
 
Trocando em miúdos, não faz o menor sentido entulhar sua casa de centenas de itens “sustentáveis” pois consumir exageradamente é lançar diariamente toneladas de lixo no ambiente local e global.
 
Quando se compra um produto de garrafa pet todo pintado e customizado talvez se cause boa impressão aos círculos de amizades, soa como “proteger” o planeta e até se cria uma sensação íntima de bem-estar. Mas o que realmente faria diferença global e ambiental seria refletir a real necessidade de comprar algo ou se outro material gasta bem menos água no processo de lavagem e produção, tinta na confecção, mesmo não sendo de pet já que a tinta tem solventes altamente nocivos ao ambiente.
 
Ou seja
 
Não faz tanta diferença se nosso banho é de 10 ou de 20 minutos para a água finita do planeta. Isso não irá “salvar o planeta” ou nos tornar “verdes”. Devemos fazer isso simplesmente porque 10 minutos ou 15 são suficientes para um banho adequado.
 
O desenvolvimento sustentável das nações, garantindo efetivamente recursos para estas e futuras gerações só é viável com a redução grandiosa do consumo atual. Desta forma É INVIÁVEL NO SISTEMA CAPITALISTA haver a tão falada “sustentabilidade” pois ela está fundamentada em consumo suficiente e controlado, mecanismo completamente oposto às forças imperiosas do capital, do lucro incessante.
 
Se queremos “salvar” este planeta para as gerações atuais e futuras devemos repensar nosso modo de vida e estarmos dispostos a muda-lo. Como trabalhadores somos os verdadeiros “donos da terra” e para salvá-la somente nos empenhando na derrota do sistema econômico capitalista, onde o consumo imoral e alienado é a força motriz para sua perpetuação.

 

 
Referências:
 
Comissão_Mundial_sobre_Meio_Ambiente_e_Desenvolvimento
 
Saco plástico causa menos danos que ecobags, diz relatório
 
Some grocers abandon rebates for reusable bags
 
Made in Vietnam
 
Estudos sociedade e agricultura
 
   Belle Ramos – Formada em Controle Ambiental pelo Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca e Mestre em Engenharia Ambiental pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
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