A esquerda tem razões para festejar?

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Apesar não ter conseguido classificar-se como a terceira força política nestas eleições, o Bloco de Esquerda teve um importante êxito eleitoral – dobrou o número de deputados, teve mais votos, ultrapassando o meio milhão, e ficou á frente do PCP (que também teve mais votos e elegeu mais um deputado), ainda que por magra margem.

Euforias à parte, seria bom que a esquerda que se quer revolucionária e anticapitalista e os trabalhadores reflectissem um pouco sobre o rumo que segue o BE. Indiscutivelmente, os resultados vieram reforçar a tendência nele dominante desde o início: a reconversão dos restos da extrema esquerda (PSR e UDP) num “novo” partido da esquerda do sistema. Foi essa a lógica que presidiu às negociações do “casamento” de 1999, mesmo que não estivesse clara para a massa dos militantes. Este é o fenómeno novo na cena política nacional: a ascensão de um partido de reformas, jovem, dinâmico, desempoeirado. Em contraste com o PCP, antigo partido proletário entrado na agonia depois de vir sendo durante décadas rebaixado a simples apêndice do democratismo burguês, o Bloco emerge como um partido jovem. Mas, apesar das suas rivalidades, PCP e BE completam-se mutuamente exprimem os interesses das duas fracções da pequena burguesia – a tradicional, patriótica, alimentada por uma versão tacanha do marxismo, encostada por instinto ao proletariado; e a mais moderna, europeísta, arejada, ecléctica.

Naturalmente, são muitos ainda os que acreditam nas potencialidades revolucionárias do BE. Esquecem a distância entre a fraseologia do partido e aquilo que ele é na prática diária, a distância entre o que o partido é o que julga ser.

Isso ressaltou durante a campanha. As reivindicações bem intencionadas de uma economia mais justa, pela “transparência”, para tornar a economia mais competitiva sem deixar de ser “humana” não têm nada a ver com o mundo real – e eles sabem-no.

O sonho a que se agarram teimosamente tantos dos ex-esquerdistas de 75 – manter referenciais de esquerda, de acusação ao sistema, sem sacrificar a conquista de lugares no parlamento, o acesso à comunicação social, a “respeitabilidade” – é inalcançável.

Se a nossa esquerda alinhou briosamente atrás destas escolas modernas não foi meramente para fugir a problemas incómodos como o de explicarem a implosão do bloco de leste, o fracasso das vias estalinistas, maoístas, trotskistas, etc, e de como a partir dessas tentativas fracassadas poderão os proletários retomar a subversão da ordem burguesa. Se analisarmos até ao fim, retrata da capitulação dos ex-revolucionários que abdicaram de desafiar o edifício do poder burguês.