Publicado en: 16 abril, 2018

Internacional. A fumaça da guerra na Síria

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

EUA, Inglaterra e França não obtiveram uma vitória, pois o regime de Assad continua existindo e saiu moralmente fortalecido em razão dos agressores terem violado a Lei Internacional.

480 aC, um pelotão de 300 espartanos são derrotados nas Termópilas pelo imenso exército de Xérxes.

Exauridas pela travessia dos Alpes e em menor número, as tropas de Aníbal Barca derrotam um exército romano maior e melhor equipado em 218 aC nas imediações do rio Ticino.

Usando duas bombas atômicas, os EUA derrotam o Japão em agosto de 1945. Em abril daquele mesmo ano o III Reich é derrotado na Europa pela URSS.

Citei esses quatro exemplos por uma razão absolutamente simples. Não existe dúvida de que eles representam respectivamente o que poderíamos chamar de derrota honrosa, vitória gloriosa e inútil, vitória desonrosa e derrota humilhante.

O exemplo de coragem dos soldados de Leônidas inspirou as cidades estados gregas a se unirem para derrotar os persas.

O sucesso de Aníbal não acarretou o colapso total de Roma, apenas adiou a derrota de Cartago.

O extermínio de centenas de milhares de velhos, mulheres e crianças em duas cidades sem importância militar envergonhará para sempre os norte-americanos. Os nazistas alemães diziam que eram superiores aos outros povos e foram derrotados pelos eslavos que eles acreditavam ser inferiores.

Ontem três potências ocidentais atacaram a Síria. Mas não podemos encaixar o que ocorreu em nenhuma das categorias citadas.

EUA, Inglaterra e França não obtiveram uma vitória, pois o regime de Assad continua existindo e saiu moralmente fortalecido em razão dos agressores terem violado a Lei Internacional.

A Síria, porém, foi um pouco mais devastada e não está em condições de tirar proveito da vitória moral.

Nem guerra decisiva, nem impasse sem hostilidades. O que nós vimos ontem foi uma exibição de armamentos norte-americanos, ingleses, franceses e russos. Os verdadeiros inimigos não se enfrentaram.

Os agressores tomaram o cuidado de não atacar soldados da Rússia na Síria e esses não revidaram o ataque ao seu aliado sírio.

Na Antiguidade a guerra era um fenômeno político desencadeado pela cobiça. O objetivo era destruir o inimigo para obter o que ele podia proporcionar: territórios, minas de metais preciosos, riquezas armazenadas, tributos, escravos, etc… Até a II Guerra Mundial esse padrão seguiu inalterado. O conflito que vimos ontem tem uma natureza diferente.

Encerradas as hostilidades, os dois lados que não se enfrentaram iniciam a guerra de palavras.

EUA, Inglaterra e França comemorarem o sucesso da operação. A Rússia afirma que 70% dos mísseis ocidentais foram destruídos pelos sistemas de defesa da Síria, frisando que eles foram fabricados pela URSS durante a Guerra Fria.

Destruídos pelo uso, os armamentos utilizados em 13 de abril de 2018 terão que ser repostos. Isso assegurará os lucros das indústrias de defesa nos EUA, Inglaterra, França e Rússia. A guerra deixa, portanto, de ser um meio para alcançar um fim e se transforma num fim em si mesmo.

Leônidas e Aníbal Barca compartilhavam os mesmos riscos que os seus soldados em batalhas em que o cheiro do suor do inimigo podia ser sentido.

À milhares de quilômetros do teatro de operações, Donald Trump, Theresa May e Emmanuel Macron não correram qualquer risco. Há décadas Assad corre o risco de ser morto na Síria. Isso explica porque ele é mais amado pelo seu povo do que os líderes ocidentais por franceses, ingleses e norte-americanos.

Os militares que atacaram a Síria se limitaram a apertar botões, os sistemas automatizados fizeram o resto. Mesmo assim eles dirão aos seus filhos e amigos que estiveram nas Termópilas ou em Ticino.

A covardia virou uma virtude produzida e distribuída pelo mercado.

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