Publicado en: 16 mayo, 2018

Brasil. O sorriso do fascismo

Por Paulo Moreira Leite

Depois da fraude sobre o assassinato de Vladimir Herzog e Rubens Paiva,os dez dirigentes do PCB e da Chacina da Lapa,a morte de Olavo Hansen*,esses segredos, essas mentiras,esse cinismo,alimentam o sorriso do fascismo que assombra o país nos dias de hoje.

 

CIA mostra o que ditadura fez do Brasil

Numa nação que em 2018 convive com o os movimentos de um personagem tenebroso como Jair Bolsonaro, o documento da CIA sobre execução de adversários do regime militar servem para confirmar que as ditaduras e os ditadores só cabem no lixo da História, cobertos por uma vergonha sem limites e uma indignação permanente.

A principal lição do documento – cujo teor integral permanece reservado, 44 anos depois – é mostrar a tragédia de um país governado por autoridades que se imaginam capazes de promover ataques criminosos e seletivos contra os inimigos políticos, sem perder autoridade nem comando sobre a situação de conjunto.

Recém-empossado pelo regime de baionetas e balas na nuca que governava o país, a conversa entre Ernesto Geisel e um grupo de subordinados é de uma clareza chocante e definidora. Também obriga a uma primeira constatação espantosa.

Por meio século, o registro de um diálogo tão comprometedor e repulsivo foi acessível à alta cúpula do governo dos Estados Unidos — que teve nove presidentes no período, inclusive Richard Nixon, que deixaria o cargo poucos meses depois — mas permaneceu escondido por mais de quatro décadas dos brasileiros e brasileiras.

 

 Revela-se assim uma situação particularmente desmoralizadora para um regime tão cioso daquilo que chamava de Segurança Nacional, conceito manipulado à vontade para justificar atrocidades contra cidadãos e cidadãs de brasileiras. (Embora tenham importado técnicas de tortura empregadas pelo Exército colonial francês em guerras na África, as Forças Armadas brasileiras empregavam a violência contra seus compatriotas, coisa que os franceses não costumavam fazer).

Quarenta e quatro anos depois de um macabro encontro entre o recém-empossado presidente Ernesto Geisel e altos oficiais das Forças Armadas, os fatos são de uma simplicidade chocante.

Um presidente da República, com décadas de atividade contra a democracia — na década de 50 contra Getúlio, na crise contra Jango em 1962, no golpe de 64 — coloca-se na posição de quem “autoriza” a execução de inimigos políticos. Sem julgamento, sem o devido processo legal, sem direito de defesa. Nada daquilo que hoje chamamos — algumas vozes falam em tom de desprezo — de garantias e direitos humanos.

O que importa ao regime é a vontade do ditador, sua opinião. Ninguém está incomodado com as vidas humanas, com existências que seriam destroçadas — mas com a hierarquia, o poder de Estado, usurpado sucessivamente desde 1960, quando havia ocorrido a última eleição direta para presidente. Era isso, o poder usurpado, que nem remotamente poderia ser colocado em risco. Quer a palavra final, obtida pela decisão sobre a vida e a morte, a ser partilhada exclusivamente com seu homem de confiança, João Figueiredo, que, num sintoma de todas as coisas, da antecipação geral do desastre, em 1985 seria forçado a deixar o Palácio do Planalto pela porta dos fundos.

Entre assassinatos encomendados e aqueles não autorizados, ninguém se salvou. A institucionalização do assassinato como método de ação política tornou o país muito pior, artificialmente pior — como se já não tivéssemos tantas mazelas herdadas pela desigualdade estrutural, pela história e pela geografia.

O crime produzido no coração do poder de Estado, na sua instância suprema, formalmente secreta até quinta-feira passada, preparou um país desfalcado, emburrecido pela violência, castrado pela falta de diversidade, com uma excrescência autoritária sempre à espreita, confiante da própria impunidade.

Estamos falando de um sistema acima de tudo corrupto. Claro que havia a corrupção de sempre, herdada, reproduzida e escondida pela censura. Mas não é disse que se trata. Porque não pode haver corrupção maior do que acobertar responsabilidades pela eliminação de vidas humanas. Assim: escondendo a verdade em arquivos incinerados — ou que se diz que foram incinerados.

Depois da fraude sobre o assassinato de Vladimir Herzog e Rubens Paiva, os dez dirigentes do PCB e da Chacina da Lapa, a morte de Olavo Hansen, esses segredos, essas mentiras, esse cinismo, alimentam o sorriso do fascismo que assombra o país nos dias de hoje. Aqui está o que importa. Aqui se encontra a ameaça — mais uma vez.

No país que vivia sob o Ame-o ou Deixe-o, foi preciso da CIA para saber o que acontecia com no governo — com meio século de atraso.

 

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PS do colaborador:

* Olavo Hanssen foi o primeiro operário morto, sob tortura, nas dependências do Deops de São Paulo. Sindicalista e dirigente do PORT. Em maio de 1970, foi preso e torturado, e seu corpo foi encontrado perto do Museu do Ipiranga.

Fotoarte:  “O Sorriso da Hiena

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