Brasil. Feminismo, racismo e responsabilidade

Por Joanna Burigo

Para as feministas brancas é muito confortável criticar genericamente comportamentos machistas sem prestar atenção no critério analítico “raça”.

 

Na semana passada, duas rappers brancas auto-identificadas como feministas lançaram um vídeo que reproduzia estereótipos violentos sobre homens negros. Como de praxe, quem alertou sobre o racismo na ação foram feministas negras. Não me cabe analisar todas as nuances e violências relativas ao episódio, mas como feminista branca não pode me escapar fazer parte do grupo que deu início a ele.

Em maio do ano passado, no que costumava ser uma tradição anual da faculdade de artes liberais da Evergreen State College, nos Estados Unidos, foi realizado o “Dia de Ausência”, evento que incentivava estudantes, professores e funcionários não-brancos a abandonarem voluntariamente o campus, para fins de fomentar debates sobre justiça racial e desigualdade.

Organizadores, no entanto, sugeriram uma mudança na tradição, e encorajaram brancos a saírem do campus. O professor Bret Weinstein – branco – foi bastante crítico da mudança, e incentivou um boicote ao evento, que ele qualificou como “um espetáculo de força e um ato de opressão”.

Seu posicionamento não passou incólume, os dias que seguiram foram bastante tensos, e o acontecimento provocou debates intensos sobre a eficácia de táticas de combate a opressões estruturais.

É discutível a validade do exercício proposto pelo “Dia de Ausência”?

Sim, mas isso já era verdade sobre sua versão tradicional, e a sugestão de mudança me parece muito menos problemática. Ora, se a intenção desta tradição de exclusão simulada visa romper com lógicas racistas, não seria mais lógico que permanecessem no campus os historicamente excluídos dos muros da academia por preconceito racial, e que ausentes ficassem os que precisam pensar na própria responsabilidade por sua manutenção?

A relutância do professor não apenas em participar, mas em endossar a variação na tradição, pode ser explicada pelo que Maria Aparecida Silva Bento denomina de pacto narcísico da branquitude. O pacto, resumidamente, é um acordo tácito entre brancos, que reconhecem a existência de desigualdades raciais, mas não as associam às discriminações que cometem.

Em uma pesquisa sobre racismo no Brasil realizada pela USP em 1988, 97% dos entrevistados afirmaram não ter preconceito racial. No entanto, 98% reconheceram que racismo existe no País.

Se o racista é sempre o outro, e se brancos não estão dispostos a assumir a própria responsabilidade pela manutenção de estruturas racistas, quais mudanças podemos vislumbrar?

Ser aliado é tomar responsabilidade

Se o machista é sempre o outro, e homens não estão dispostos a assumir a própria responsabilidade pela manutenção de estruturas machistas, quais mudanças podemos vislumbrar?

Muitas feministas alegam não saber como ser aliadas no combate ao racismo. Mas vale lembrar que nossas dúvidas sobre como devemos proceder devem ser semelhantes às de homens que não sabem como ser aliados na luta contra o machismo.

Esperamos de homens aliados, primordialmente, que percebam nossa humanidade – o que, dentre outras coisas, colabora para que nos escutem de fato. Escutando de fato, podem perceber a discrepância do tratamento social conferido a nós e a eles, e assim podem passar a receber críticas de forma madura, não se sentindo ofendidos por verdades inconvenientes sobre o próprio machismo, ou ficando na defensiva quando nelas cabem.

Agindo assim, tampouco refutariam nossos argumentos antes mesmo de tentar compreende-los. Também esperamos de homens aliados que não se coloquem em posições de protagonismo nos debates sobre o machismo com que contribuem, mas que usem o protagonismo que têm perante seus pares para combater o machismo deles.

O que se espera de aliados é que consigam superar o desconforto de se perceberem agentes individuais de estruturas sociais de opressão, e que rompam pactos narcísicos tomando responsabilidade pelas próprias ações e pelo próprio preconceito.

Sejam esses aliados homens que dizem querer combater o machismo… ou nós, feministas brancas que dizemos querer combater o racismo.

Somos constituídas numa estrutura social desigual, que nos forma para pensarmos e agirmos de formas racistas e machistas, o que acabamos fazendo repetidamente se nos mantivermos sem consciência disso. Assim, é muito mais útil trazer isso à tona para tentar modificar as coisas do que insistir em ilusões de pureza ou retidão da nossa parte.

Pode não ser fácil, mas não precisamos tornar as coisas ainda mais difíceis sendo narcísicas. Entendo que seja bastante dolorido reconhecer-se como agente ativa de opressões estruturais, mas não podemos perder de vista – como perdeu o professor Weinstein – que é muito mais duro ser recipiente delas. Especialmente quando nos beneficiamos delas.

Homens, até os mais bem-intencionados, se beneficiam do machismo. Brancos, até os mais bem-intencionados, se beneficiam do racismo. Se não tivermos disposição para abrir mão dos privilégios que acessamos por sermos brancas numa sociedade racista, estamos interditando avanços tanto quanto os que não têm disposição para abrir mão dos privilégios que acessam por serem homens numa sociedade machista.

Eu, que falo muito sobre racismo no feminismo, não penso que já entendi tudo e sigo trazendo isso à consciência, ainda que fique bastante desconfortável.

O desconforto tem potencial transformador quando quem fica desconfortável é o machista por seu próprio machismo, a racista pelo próprio racismo, e assim por diante com o homofóbico, o elitista, a transfóbica, o capacitista…

Causar desconforto cometendo atos machistas ou racistas não transforma nada, só acentua injustiças.

O desconforto, para ser potente como penso que ele pode ser, tem que ser sentido por quem se beneficia de uma relação desigual de poder.

Desconfortável deveria ficar quem está confortável demais com um privilégio que, para ser mantido, requer que outros sejam oprimidos. Certos confortos não podem continuar existindo às custas de opressões sistêmicas, e precisamos tomar responsabilidade por nossas ações que com elas corroboram, ainda que isso seja desconfortável.

O debate acerca do vídeo das rappers revelou, mais uma vez, o enorme entrave que é o racismo no feminismo, bem como as múltiplas violências que sofrem as mulheres negras.

Para feministas brancas é bastante confortável fazer críticas genéricas a comportamentos machistas sem prestar atenção no critério analítico “raça” – mesmo que as feministas negras há anos venham nos ensinando que isso não é desejável quando corrobora com violências racistas.

E são feministas negras quem acaba recebendo reações narcísicas violentas, seja de mulheres brancas que não dão conta de lidar com o próprio racismo ou de homens negros – a quem elas defendem do nosso racismo – que não dão conta de lidar com o próprio machismo.

Penso que o desconforto pode ser uma escola potente para aliados, se não permitimos que ele nos mova na direção da retaliação narcísica e violenta, ou da vergonha paralisante, ou da culpa massacrante. O desconforto é útil quando nos move para uma tomada de responsabilidade.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

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https://www.cartacapital.com.br/diversidade/feminismo-racismo-e-responsabilidade

 

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