Publicado en: 23 julio, 2018

Brasil. Democracia não virá de mãos beijadas

Por Joaquim Ernesto Palhares

Não nos enganemos: sim, milhões de brasileiros sabem que Lula é um prisioneiro político; mas milhões não sabem ainda porque se informam pelo Jornal Nacional. E a situação irá piorar: Lula foi proibido de se comunicar pela imprensa.

Antes de qualquer comentário, como cidadão brasileiro, transmito meus cumprimentos e o de vários colaboradores e leitores da Carta Maior, ao desembargador Rogério Favreto, do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4) que, no último dia 8 de julho, expediu a ordem de soltura do ex-presidente Lula.

Baixada a poeira, é hora de analisarmos o que aconteceu, em especial, como vários setores se lançaram em deslegitimar a decisão de Favreto, impedindo a discussão daquilo que realmente importa: o caráter persecutório e político da prisão de Lula.

A imprensa, por exemplo, apresentou Favreto como um plantonista, de esquerda, “agente” de Lula e do PT, desqualificando sua carreira no Judiciário e, sobretudo, sua decisão. Uma ficção capaz de absorver as manobras escancaradas de Moro, Gebran e Thompson Flores que mantiveram Lula preso. Enquanto a esquerda denunciava essas manobras, inclusive, manobras ilegais; a mídia convidava juízes, especialistas, jornalistas e colunistas para descerem a lenha em Favreto.

Ficou patente, translúcida, escancarada que a direita manterá Lula, custe o que custar, na prisão durante as eleições neste ano. Até a Procuradora Geral da República entrou na briga, mencionando a aposentadoria compulsória de Favreto, uma das penalidades mais graves para um juiz no Brasil.

Não nos esqueçamos que, em apenas quatro anos, a Lava Jato teve um papel central no desmantelamento de setores estratégicos da economia nacional (Petrobras, indústrias naval e da construção civil etc.). Esteve no centro, também, do impeachment de Dilma Rousseff e vem mantendo presa, há mais de cem dias, a principal liderança política do Brasil e da América Latina.

Enquanto isso, os “vendilhões da pátria” estão se desfazendo das estatais brasileiras, estão vendendo às estrangeiras imensos lotes de terras, entregando a preço de banana o direito de explorar toneladas de riquezas naturais. Esse é crime que ninguém investiga. O país está sendo retalhado. A democracia não voltará de mãos beijadas, essa é a lição de 8 de julho.

Aliás, sugiro a todos, o filme “Jogo de Poder” (Fair Game) de Doug Lima inspirado na história verídica de Valerie Plame, agente da CIA, e de seu marido, o diplomata Joseph C. Wilson que, em 2003, acusaram a mentira de Bush sobre a proliferação de armas no Iraque, sofrendo muita perseguição por isso. (Confira aqui resenha de Léa Maria Aarão Reis sobre o filme).

Em uma das cenas, Sean Penn (que interpreta Wilson) questiona a uma plateia de universitários: “quantos aqui conhecem as 16 palavras do discurso do Presidente Bush que nos levou à guerra?” Ninguém sabia, mas todos sabiam as bobagens veiculadas pela imprensa contra sua esposa, Valerie Plame. “Como podem saber um e o outro não?” questiona o personagem.

Não nos enganemos: sim, milhões de brasileiros sabem que Lula é um prisioneiro político; mas milhões não sabem ainda porque se informam pelo Jornal Nacional. E a situação irá piorar: Lula foi proibido de se comunicar pela imprensa. “Eles não querem só me manter preso, também querem me calar”, comentou, coberto de razão nesta semana (leia mais).

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Joaquim Ernesto Palhares
Diretor da Carta Maior

 

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