Brasil. Ciclo de debates na Bahia: Genocídio da população trans e travesti

Por Gabriel Valery

Formação de estereótipos impacta na redução da qualidade de vida dessas pessoas. A partir dos 13 anos, em média, pessoas desse gênero são expulsas de casa pela família.

Genocídio da população trans e travesti é tema de ciclo de debates na Bahia

A Universidade do Estado da Bahia (Uneb) promove, entre hoje (16) e amanhã, o 1º Ciclo Estadual de Conferências Sobre Identidade Trans e Travesti, no campus da instituição, em Salvador. O sexólogo, estudante de Psicologia, monitor e professor do Projeto Universidade para Todos (UpT), Armando Januário dos Santos, que organiza e palestra no evento, classifica o evento como “de máxima importância”, já que “estamos em um país que, de acordo com a Associação Nacional de travestis e Transexuais, em relatório de 2017, uma pessoa de identidade T vive, em média, 35 anos”.

Armando estuda o tema desde 2011 e, em suas pesquisas, relata que a situação dessas pessoas é de “um verdadeiro genocídio”. Para ele, a discriminação está em diferentes esferas sociais, em diferentes áreas do convívio, inclusive na academia. “Aquilo que a Inquisição da Igreja fazia com o autodenominado Santo Ofício, hoje existe o mesmo mecanismo por parte da ciência. A maior prova é que quem está falando sobre isso hoje é um homem cis heterossexual.”

“Na verdade, quem deveria estar nessa entrevista é uma pessoa trans, de preferência não binária. Mas não temos pessoas com identidade T liderando esse debate na universidade”, disse à RBA, ao argumentar que apenas 0,02% da população trans e travesti está nas universidades. Santos classificou seu ofício como “uma questão de compromisso social”. “É nossa obrigação promover o espaço de discussão de proposições sobre as identidades T, discutindo em todas suas especifidades”, completou.

Esta primeira edição traz o tema “A exclusão de pessoas trans e travestis – uma questão social”. Entre os objetivos está a discussão sobre a identidade de gênero T com a sociedade, a fim de desmistificar preconceitos. “A formação de estereótipos impacta na redução da qualidade de vida dessas pessoas. O mesmo relatório de 2017 informa que, a partir dos 13 anos, em média, pessoas desse gênero são expulsas de casa pela família. Então, o primeiro mecanismo de acolhimento social já não serve. A escola também não as aceita. Reprime e enxota com o bullying transfóbico”, acrescentou.

Essa exclusão acaba explicitando as razões pela baixa expectativa de vida dessas pessoas. “Uma vez sem família e sem escola, chegar ao mundo do trabalho é complicado. Aí entra outro dado: 90% da população T sobrevive da prostituição. A profissão do sexo é uma imposição para essas pessoas. Isso tudo em cima de estereótipos criados desde cedo. A essas pessoas é imposto um caráter de aberração, de afronta ao Ser divino. A sociedade rotula.”

 Imposição sobre os corpos

O pesquisador explica que as identidades de gênero T são as mais vulneráveis dentro do universo LGBT, em razão da natureza de seus corpos. “No caso de pessoas homossexuais, a sociedade hétero cis normativa, quando vê essas pessoas, a enxerga uma possibilidade de haver uma ‘salvação’. Um retorno à sua condição hétero cis normativa. Isso para lésbicas e gays. Com as travestis e trans isso não é possível. A construção de seus corpos diz à sociedade que não há ‘salvação’. Como não há retorno, a sociedade impõe uma lógica de morte social ou física. Ou os dois, já que o Brasil é o país que mais mata a população T.”

Esse modelo normativo, como explica Santos, é reiteradamente fracassado. “Não podemos confundir questões de identidade de gênero com orientação sexual. Até porque, identidade de gênero não se constrói a partir de órgão sexual. As pessoas trans mostram como o projeto hétero cis normativo é falido, fracassado. Esse projeto está equivocado. Homem e mulher são construções sociais, políticas, assim por diante.”

Como exemplo disso, o pesquisador fala sobre a recepção dessa identidade de gênero em outras culturas. “O que chamamos de identidade T é algo que sempre ocorreu. Povos indígenas na América do Norte chamam de pessoas de dois espíritos. Na Índia temos uma casta dos rijras, que são chamadas de pessoas sagradas. Elas batizam os filhos.”

População golpeada

A conferência vai tratar da questão das identidades T dentro do contexto político atual, aonde se destacam ondas ultraconservadoras. “Vamos tentar dar conta e fazer um enlace entre esse momento político que vivemos, de ascensão de um neo-obscurantismo, como diria o Rubens Casara (jurista) em seu livro Estado Pós-Democrático (2017), em que ele fala sobre a gestão dos indesejáveis. Então, como o golpe de 2016 impacta sobre esses indesejáveis. Embora Casara não fale especificamente da população trans, quando fala de rejeitados, fala das minorias”, disse.

“Com o avanço do discurso conservador, vemos uma perpetuação de discursos de desigualdade social. Nas últimas semanas, vi discursos, inclusive de pessoas LGBT, sobre o discurso do Johnny Hooker (cantor não binário) dizendo que Jesus é travesti. Talvez as pessoas não tenham entendido a riqueza do discurso dele e levado apenas para o campo semântico. Eu, como cristão progressista, me pergunto: dentro do discurso cristão, que é altamente reacionário, por que Jesus não poderia ser uma travesti?”, completou o sexólogo, ao afirmar que sua pesquisa não o fez menos cristão. “Cristo trouxe a mensagem de respeito, não julgamento e de acolhimento.”

A programação completa do evento pode ser acessada no site da Uneb.

Foto: Bandeira símbolo da identidade T. Expectativa de vida do grupo é de apenas 35 anos

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https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2018/08/genocidio-da-populacao-trans-e-travesti-e-tema-de-debate-na-bahia

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